Ainda hoje, recordo-me, com um misto de nostalgia e satisfação intemporal, da forma como a minha tia, Lígia, preparava, organizava e, posteriormente, desenvolvia, com artefactos caseiros, comuns e nada sofisticados, todo o processo que permitia a confeção do óleo de palma, lá na roça, utilizando um fruto específico da palmeira africana, o dendém ou andim.

Tal processo, interiorizado por nós, crianças ou adolescentes, naquela altura, comportava, na nossa inocência, um misto de magia, invenção, desígnio profético ou outra coisa qualquer, sem explicação fácil, que permitia a transformação da polpa do andim em azeite, que era e é, por sinal, o constituinte principal da maior parte da culinária da ilha do Príncipe.

Ou seja, o azeite de palma era, desde o processo da sua confeção e posterior utilização no contexto culinário, um elemento central e insubstituível da nossa cultura e identidade insular sem qualquer relação, explicativa para nós, com a Ciência.

Não sabíamos, nem nós nem a minha tia Lígia, por exemplo, que os conceitos de solubilidade e de densidade, entre outros, inerentes às Ciências Físico-Químicas, eram essenciais em todo o processo de confeção do referido azeite.

Todavia, transversalmente na sociedade insular, era normal e até desejável, considerar-se que um bom azeite, qualquer que ele fosse, nunca poderia ficar por baixo da água, no processo da sua confeção.

Isto perdura, até hoje, na nossa sociedade e já faz parte do senso comum e as crianças de hoje, no Príncipe, provavelmente, devem sentir o mesmo que eu sentia há 30 ou 40 anos, lá na roça com a minha tia.

Eu poderia dar outros exemplos, para além deste, relacionados com outros ramos das Ciências Naturais e até das Ciências Humanas, que preencheram o meu imaginário, como criança ou adolescente, passados de geração em geração, e que sempre fizeram parte da nossa cultura e identidade, mas nunca deixaram de ser senso comum, nalguns casos, comportando até uma grande carga simbólica negativa ou prejudicial à sociedade.

Neste último caso, podemos exemplificar com aquilo que acontece com os nossos idosos, invulgarmente apelidados de feiticeiros, nalguns casos maltratados e abandonados, através da mobilização, inconsciente e por ignorância, deste registo intemporal que chamamos de senso comum.

Mas aquilo que chamamos de senso comum e está, nalguns casos, na base da nossa cultura e identidade, não terá nada a ver com a Ciência?

Embora não tenha nada a ver com a Ciência, aquilo a que chamamos, de facto, de senso comum e que faz parte das nossas atividades diárias, geracionalmente sustentadas por um arquivo de oralidade secular que suporta a nossa identidade e cultura, deve constituir-se num elemento imprescindível, entre outras ações, para o desenvolvimento da Ciência no contexto regional.

Atravessamos, neste contexto temporal e histórico concreto, decorrente das oportunidades oferecidas pelo processo de globalização, por um lado, e condições intrínsecas decorrente do processo de autonomia regional, por outro, um período propício para a criação de condições de investimento na Ciência, apesar das nossas limitações e constrangimentos em múltiplos domínios.

Investir na Ciência pressupõe também o investimento no nosso património, material e imaterial, criando-se assim condições para o conhecimento e compreensão, apropriação crítica e valorização científica do mesmo.

É, no fundo, investir nas pessoas, na formação das mesmas como veículo de emergência de uma sociedade de aprendizagem, em detrimento da proliferação da ignorância.

É, também, por isso mesmo, investir no respeito e tolerância pelos outros e, consequentemente, no aprofundamento da nossa democracia e na criação de instituições, públicas e privadas, promotoras do conhecimento e da cultura. Só assim será possível a assunção coletiva e aposta no desenvolvimento sustentável que tanto apregoamos como nossa bandeira e opção estratégica.

Partindo desta premissa, este é o momento ideal, para começarmos a fazer alguma coisa, neste âmbito, tendo em conta que no próximo ano comemoramos o centenário da expedição astronómica ao Príncipe, organizada conjuntamente pela Royal Astronomical Society e Royal Society, que foi liderada pelo astrónomo Arthur Eddington, com o objetivo de confirmação da Teoria da Relatividade Geral, que alterou a visão que temos hoje do Universo.

A Ilha do Príncipe foi, naquele contexto histórico e temporal concreto, a par do Sobral, no Ceará/Brasil, o lugar para onde convergiram todas as atenções.

Esta é a altura ideal de juntarmos o útil ao agradável, ou seja, de celebrarmos esta efeméride que prestigia e divulga internacionalmente o nome da Ilha do Príncipe e, simultaneamente, lançarmos um programa específico, com objetivo transversal em toda a sociedade insular, de transformação do mês de maio, no contexto regional, no mês da Ciência, como já fazemos com o mês de agosto relativamente à cultura.

Neste âmbito, de acordo com a intenção do Governo Regional, pretendemos que, anualmente, no mês de maio, deva ser desenvolvido no contexto regional, um programa específico, contemplando diferentes públicos-alvo, que possa, transversalmente, abordar assuntos de diferentes áreas do conhecimento científico e, desta forma, contribuir para a “popularização” da Ciência, por um lado, e concomitantemente, aprofundar o conhecimento e compreensão científica daquilo que faz parte do nosso património cultural.

É óbvio que, o referido programa, tendo uma base e conteúdo de intervenção, no contexto regional, de forma transversal, não pode minimizar a importância da Escola, no referido contexto, como contributo insubstituível para a materialização deste propósito, apesar das limitações que as mesmas apresentam em termos de recursos diversos.

Será, porventura, uma boa oportunidade, também, para a melhoria do ensino das Ciências nas Escolas do contexto regional, criando-se, assim, condições para dotá-las de alguns recursos, de natureza organizacional, material e a nível de formação de professores, com o objetivo de melhorar, radicalmente, a preparação das nossas crianças e jovens em todos os domínios do conhecimento.

Por isso é que, também, contamos com a ajuda de todas as instituições, de natureza pública ou privada, do contexto nacional e internacional, que nos queiram ajudar na concretização deste objetivo.

Este também será um pequeno e insubstituível contributo para a alimentação do nosso propósito de um desenvolvimento sustentável.

O maio do Príncipe será Ciência; como agosto já é Cultura!

José Cardoso Cassandra

Presidente do Governo Regional da Ilha do Príncipe

Maio de 2018

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